Toda vez que uma empresa de tecnologia lança um produto novo, ela usa uma linguagem que parece mais discurso de posse presidencial do que nota de lançamento. “Praça pública no seu bolso.” “Constituição” para a IA se comportar. Isso não é acidente. E segundo uma pesquisa recente, isso revela algo bem mais sério sobre como o Vale do Silício enxerga o próprio poder.
O que aconteceu
Numa matéria do TechCrunch AI, a historiadora Jill Lepore apresenta uma teoria interessante sobre a linguagem inflada que empresas de tecnologia usam para descrever seus produtos. Ela lembra do velho slogan do Twitter, que se vendia como “a praça pública do mundo inteiro”. E cita também a “constituição” que a Anthropic criou para guiar o comportamento do Claude.
Segundo o TechCrunch AI, Lepore está lançando um livro sobre isso, algo que ela chama de “Estado Artificial”. A ideia central é que empresas de tecnologia não se comportam como empresas comuns. Elas se comportam como se estivessem fundando um novo tipo de governo, com suas próprias regras, sua própria “constituição” e sua própria noção de cidadania.
E tem uma provocação a mais na entrevista: os líderes do Vale do Silício, segundo ela, são péssimos leitores de ficção científica. Eles leem histórias distópicas e enxergam manual de instrução, não aviso de perigo. O livro que deveria servir de alerta vira roteiro de produto.
Por que isso importa pro empreendedor digital
Você pode pensar que isso é problema de gente grande, de Sam Altman e companhia. Mas essa lógica do estado artificial vaza pra baixo. Ela chega no infoprodutor que cria sua “comunidade exclusiva”, no criador de conteúdo que fala em “movimento” e no dono de curso que promete “transformar a vida” de milhares de pessoas.
A linguagem inflada é sedutora porque funciona. Ela cria pertencimento, gera identificação, vende mais rápido. O problema é quando você começa a acreditar no próprio discurso e esquece que está vendendo um produto, não fundando uma nação.
Isso importa porque o empreendedor digital que constrói negócio sério não precisa desse teatro. Quem entrega valor real não precisa se vestir de estado artificial pra parecer relevante. E o público de hoje, principalmente depois de tanta promessa vazia de “revolução” que virou golpe ou hype furado, está com o radar ligado pra esse tipo de discurso inflado.
Como usar isso na prática
Primeiro, olha pra sua própria comunicação. Você usa palavras como “movimento”, “revolução” ou “ecossistema” pra descrever coisas que, no fundo, são um curso, uma mentoria ou um produto? Não tem problema nenhum vender curso e mentoria. O problema é fingir que é outra coisa maior do que é.
Segundo, se você usa IA no seu negócio, seja em automações, atendimento ou criação de conteúdo, pensa nas regras que você dá pra ela. Não precisa ser uma “constituição” pomposa. Precisa ser um conjunto claro de limites do que a ferramenta pode e não pode falar em nome do seu negócio. Isso é gestão de risco, não estado artificial.
- Releia suas páginas de venda e troque palavras grandiosas por descrições concretas do que o cliente recebe
- Defina por escrito o que sua IA pode responder sozinha e o que precisa passar por revisão humana
- Pergunte pro seu time: “estamos vendendo um produto ou vendendo uma ideologia?”
- Se você lê ficção científica ou assiste filme distópico de IA, encare como aviso, não como plano de negócio
Uma coisa que sempre falo aqui no Freesider é que liberdade de tempo não vem de construir um império, vem de construir um negócio enxuto que funciona sem depender só de você. Estado artificial dá trabalho de manter. Negócio bem estruturado, não.
Minha opinião
Eu acho essa análise da Lepore certeira, e o motivo é simples. Empresa grande de tecnologia usa linguagem de estado porque quer poder de estado sem as responsabilidades de um estado. Quer decidir o que você vê, o que você fala, como sua informação circula, mas não quer prestar conta como um governo prestaria.
Discurso grandioso, na maioria das vezes, é cortina de fumaça pra esconder que o produto ainda não entrega o que promete.
E o ponto sobre os líderes de tecnologia lerem mal ficção científica também bate com o que eu vejo todo dia no mercado digital. Gente lendo case de sucesso de outro empreendedor e copiando o resultado sem entender o contexto, o esforço e os erros que vieram antes. Lê a distopia e acha que é meta.
No fim das contas, o alerta serve pra qualquer tamanho de negócio. Você não precisa criar um estado artificial pra vender bem. Precisa de proposta clara, entrega consistente e ferramentas de IA usadas com responsabilidade, sem se esconder atrás de discurso bonito. Quem constrói assim tem negócio que dura. Quem constrói discurso, tem bolha que estoura.
Vale a pena ler o raciocínio completo da Lepore na matéria original no TechCrunch AI. É um daqueles textos que fazem você repensar não só como grandes empresas se comunicam, mas como você mesmo se comunica com o seu público.
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